domingo, 29 de julho de 2012

A Rodovia Padre Cícero - Emerson Monteiro


Quando criança e viemos residir em Crato, nas férias de julho retornávamos para passar o mês no sítio em Lavras. Com próxima antecedência, minha mãe encaminhava Lourdes, a fim limpar nossa casa, que ficara fechada no período das ausências. Ela acionava os viventes da propriedade para roçar o mato em volta, consertar paredes e telhas, queimar chifres de boi nas imediações visando espantar as cobras, e varrer e lavar, deixar o ambiente de novo habitável.

Poucos dias adiante, iríamos de jipe, as pessoas da família conduzindo os poucos apetrechos próprios dessas temporadas. Nessa jornada, cruzávamos a Serra de São Pedro, trecho hoje denominado Rodovia Padre Cícero, que avança até Fortaleza, via alternativa aos outros dois caminhos antes existentes, Estrada do Algodão e BR-116. A estrada de rodagem representava, naquela fase, um desafio, uma aventura de percurso. Traçado perigoso, dotada de cortes estreitos nas encostas, dificultosos ao tráfego de dois automóveis, no encontro com outro, e nos deixava avistar lá embaixo os fundos precipícios ao quais olhávamos temerosos, de coração na mão, com um friozinho na barriga.

Desses pontos críticos o mais arriscado era a famosa Curva da Morte, volteio íngreme, sobretudo terror dos caminhoneiros que transportavam gente e carga nas estradas de piçarra. Os motoristas, impreterivelmente, deveriam trabalhar na companhia de outro profissional, o ajudante, pois, nos locais de maior periculosidade, este descia ligeiro e seguia acompanhando o transporte, calçando as rodas traseiras com uma peça de madeira, o cepo, instrumento abençoado, que evitava o retorno do carro nos instantes de falta de freio ou de força no motor.

Vistos cuidados meticulosos, ainda assim acidentes fatais ocorreram no percurso, fixados na paisagem serrana por inúmeras cruzes, a causar apreensão nos transeuntes. 

Em fase posterior, coisa de 20 anos, houve primeiras e importantes reformas, com novo desenho das piores curvas e capeamento asfaltíco, aperfeiçoando o caminho. Nesse tempo, contudo, já íamos menos ao Tatu, e nas idas buscávamos seguir pela Transamazônica, que corta Várzea Alegre e Lavras da Mangabeira.

Nisso, já no atual Governo, se acha aperfeiçoada a Rodovia Padre Cícero, de valiosa economia de quilômetros aos que viajam ao litoral, obra relevante do governo Cid Ferreira Gomes, a beneficiar todo o sul cearense. Quanto ao primeiro trecho, no entanto, de Juazeiro do Norte a Caririaçu, este, em breve, necessitará, com certeza, de maiores aprimoramentos, dada ser crescente a demanda dos veículos, o que reclama renovação da malha asfáltica e revisão no traçado de algumas áreas.       

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Versos e cantorias - Emerson Monteiro

Este final de semana, de 10 a 12 de março de 2012, corresponde à realização, em Crato, do Seminário do Verso Popular em sua terceira edição, que, desta vez, corresponde aos 21 anos de existência da Academia dos Cordelistas do Crato, e consta do programa exposições, painéis, palestras, conferências, homenagens, oficinas de xilogravura e cordéis, minicursos, feiras, mesas redondas, apresentações de trabalhos científicos, sessões de vídeos, recitais, lançamentos de cordéis, posse de novos acadêmicos, apresentações de humor e música regional, numa festa da cultura popular nordestina digna dos melhores encômios.

A coerência cultural com que se criou, no tempo certo de duas décadas passadas, a Academia dos Cordelistas do Crato ora resulta no patrimônio universal dessa literatura, circunscrevendo o âmbito das manifestações artísticas do mundo inteiro qual mérito de registro necessário.

O Nordeste brasileiro preserva suas origens medievais como nenhum outro território deste mundo, enquanto a fundação dessa instituição do verso popular aqui reúne valores exponenciais em grupo de riqueza ímpar. Autores talentosos, de oficina própria e edições que já remontam a casa dos dois milhares, atualizadas fontes da leveza das rimas e do gênero, a fonte primeira da grande literatura em juventude perene.

De particular, noticio, pois, fortes sentimentos da satisfação experimentada nestes momentos do Seminário de Verso Popular do corrente ano. Houve blocos distintos na sede da Academia, no Largo da RFFSA e no SESC - Crato. Ocorreu, concomitante, a distribuição de obras editadas pelo Projeto Livro de Graça na Praça, idealização exitosa do mineiro José Mauro da Costa, pioneiro dessa função de expandir o livro ao povo nos quatro cantos do País, também um dos conferencistas do evento, no domingo à noite. E no sábado à cantoria dos jovens expoentes da atual cantoria, Ismael Pereira e Jonas Bezerra, testemunhas autênticas do menestrel sertanejo, provas inconteste da sapiência humana por meio dessa expressão natural do verso violado.

No decorrer das manifestações, as presenças de Josenir Lacerda, Tranquilino Ripuxado, João do Crato, Mana do Romualdo, Dalinha Catunda, Pedro Costa, Eugênio Dantas, João Nicodemos, Miguel Teles, Abidoral Jamacaru, Jorge Carvalho, Pedro Bandeira, Bastinha, Poeta Nascimento, Maércio Lopes, Ginevaldo, Pedro Ernesto, Luciano Carneiro, Arievaldo, Gildemar, Willian Brito, Anilda Figueiredo, Wiliana, Carlos Henrique, Sandra Alvino, Chico Pedrosa, Maria do Rosário, Higino, Moreira de Acopiara, Ulisses Germano, Seu Zezé, Alexandre Lucas,Vicente, Vandinho Pereira, Aldemá de Morais, Zé Joel, Raul Poeta, Nizete, Manuel Patrício, dentre outros da intelectualidade caririense, razões do sucesso das ações desenvolvidas. Para formar juízo claro da importância do acontecimento, veio dele participar o autor Gonçalo Ferreira da Silva, atual Presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Atitudes - Emerson Monteiro

Trabalhar propósitos neste início de ano corresponderá ao planejamento do novo período em formas que melhor signifiquem os ideais do bom viver. Saber traçar programas para o exercício da liberdade. Dominar ao máximo os caprichos do destino através dos meios disponíveis. Fixar as metas do sucesso até onde haja as possibilidades, neste chão comum, através dos métodos dados pela humana sabedoria.

Contudo as tais postulações exigem providência inevitável desse procedimento. São as atitudes. Sim, atitudes que representam a seriedade como encarar os individuais planejamentos. Elaborar planos sofisticados, mirabolantes, raiando por vezes pretensões além das forças, enfraquece a energia dos seus autores.

Dizer isso e imaginar que planejar estabelece metas e objetivos; condiciona itens de sinceridade consigo próprio, semelhante a prometer, empenhar a palavra, com relação aos propósitos estabelecidos. E a tradição dos tempos indica o peso das promessas. Promessa é dívida, qual sempre afirma a população. Simboliza palavra empenhada, enquanto palavra equivale à expressão de quem dela faz uso. Dívida tanto pessoal quanto coletiva. Homem sem palavra é ser inexistente que habita fora da realidade.

Isso de encher o tempo de conversa pelo ar passa distante das produções necessárias e dos resultados práticos. Atitude vale a vida dos propósitos. Escutar isto no princípio deste novo calendário acordará os brios internos da gente, conquanto atenda às vontades formuladas (quem sabe?) décadas atrás. Desejos fortes ainda no berço que agora vêm à luz, neste começo de história.

Bom praticar o planejamento qual norma de respeito para com a verdade dos propósitos firmados dentro de si, a busca dos valores importantes da personalidade valiosa.

Que os objetivos traduzidos nas promessas deste novo ano encontrem respaldo nas atitudes, daqui em frente, que virão facilitar os passos de todos. No instante quando acontecem tais realizações positivas, as portas abrirão de jeito natural e obter-se-ão os frutos da Paz nos corações.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Melquíades Pinto Paiva - Emerson Monteiro


Neste dia 21 de outubro de 2011, sexta-feira, às 20h, será a vez do agrônomo cearense Melquíades Pinto Paiva preencher uma das cadeiras do Instituto Cultural do Cariri, em sessão solene que ocorrerá na sede da agremiação em Crato, de portas abertas ao público.

Natural de Lavras da Mangabeira, filho de José Rodrigues Tavares Paiva e Creusa Pinto Paiva, Melquíades nasceu em 06 de março de 1930. Pertence ao clã dos Augustos, núcleo familiar originário da matriarca sertaneja Fideralina Augusto Lima.

Nos anos 1957 e 1958, ele estagiou no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, especializando-se em Ictiologia. Cientista respeitado, obteve o título de doutor em Ciências, através do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Na Universidade Federal do Ceará, foi o diretor-fundador do atual Instituto de Ciências do Mar (1961 a 1976) - Labomar, e o primeiro chefe do Departamento de Engenharia de Pesca (1973 a 1976), havendo contribuído para a implantação do curso de Engenharia de Pesca da UFC. Agora, é diretor-emérito do Instituto de Ciências do Mar (desde 2003).

Outros títulos de sua vida acadêmica: Professor visitante na Universidade Federal do Rio de Janeiro, lotado no Departamento de Biologia Marinha (1992 a 1998); pesquisador bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (1993 a 2003); e coordenador da equipe responsável pelo levantamento dos dados pretéritos referentes a recursos pesqueiros, estuarinos e marinhos do Brasil, junto ao Programa de Recursos Vivos da Zona Econômica Exclusiva, conduzido pelo Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal (1996). Permanece desenvolvendo atividades de natureza científica e técnica.

No ano de 1944, Melquíades Paiva estudou no Cariri, sendo aluno do então Ginásio Diocesano do Crato.

Intelectual e escritor de largo prestígio, são de sua autoria centenas de artigos científicos e obras quais: Nordeste do Brasil, Terra e Gente; Ecologia do Cangaço; Conservação da Fauna Brasileira; Administração Pesqueira do Brasil; Represas e os Peixes Nativos do Rio Grande; As Bacias do Paraná – Brasil; Breves Memórias do Espaço e do Tempo; A Contribuição Portuguesa para o Estudo das Ciências Naturais do Brasil Colonial; Fauna do Nordeste do Brasil; Grandes Represas do Brasil; Os Naturalistas e o Ceará; e Trabalhos Esparsos, Agora Reunidos; isto para citar apenas algumas das publicações desse autor destacado, que representou o País em 19 missões científicas internacionais e desempenhou importantes delegações junto a órgãos da comunidade mundial em nome da Ciência brasileira.

Melquíades Pinto Paiva ocupa cadeira também no Instituto do Ceará e na Academia Lavrense de Letras, dentre outras instituições culturais.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

FILHOS ILUSTRES


Honório Correia Lima - Nasceu na Vila de São Vicente das Lavras, aos 23 de julho de 1855. Filho do Major Ildefonso Correia Lima e de Dona Fideralina Augusto Lima.
Não chegou aos bancos dos seminários e nem tampouco às instituições superiores de ensino, porém na terra natal aprendeu o suficiente para habilitar-se nas lides da profissão que abraçou como herança dos seus maiores – a política. Casado com sua prima legítima, Petrolina Augusto Lima, filha do Cel. Simplício Carneiro de Oliveira e Dulcéria Augusto de Oliveira (Pombinha).
Abastado agricultor e criador em seu município de origem, chefe político de largo prestígio, filiado ao Partido Liberal no antigo regime imperial, nas eleições municipais de 1888 foi o vereador mais votado e, dessa forma, feito presidente da Câmara Municipal.
Alto comerciante em Lavras da Mangabeira e detentor de imenso prestígio nos meios políticos do Ceará de seu tempo, Honório Correia Lima por mais de uma vez foi eleito para o cargo de Deputado Estadual, havendo tomado assento na Assembléia Legislativa do Ceará nas legislaturas de 1893 a 1897, de 1897 a 1900 e de 1901 a 1904.
Membro da Guarda Nacional da Comarca de Lavras da Mangabeira, no posto de Tenente-Coronel, em seu município exerceu as funções de Promotor Público, no período de 1901 a 1906, e as de Juiz de Direito da Comarca, posto no qual se encontrava em 1888. Em 1899 foi aclamado Presidente do Partido Republicano local, sendo posteriormente conduzido à chefia da Intendência Municipal.
Deitando influência nos primeiros escalões da administração pública estadual, na política lavrense foi um dos primeiros membros da oligarquia dos Augustos a divergir da orientação previamente traçada pelos seus antecessores, e a buscar no seio do próprio ambiente familiar a conciliação na facção marginalizada pela linha de comando imposta por Fideralina Augusto Lima e seus fiéis seguidores. Prova dessa divergência é que, tendo chegado à presidência da Câmara Municipal e à chefia do Poder Judiciário do Município ainda durante os últimos anos da Monarquia, a chefia da Intendência Municipal ele somente a alcançaria após o desempenho de três mandatos consecutivos de Deputado Estadual, e isto sob ferrenha oposição daqueles que não queriam aceitar a sua liderança.
Entretanto, terminou se consolidando no posto de líder, e no posto de líder foi um intransigente na busca da afirmação dos seus ideais e dos seus próprios interesses, não demovendo um passo sequer para ceder ao adversário as posições políticas conquistadas. E tanto que, do cargo de Intendente, em 26 de novembro de 1907, teve que ser deposto à bala por sua própria mãe, Dona Fideralina Augusto Lima e seu irmão Coronel Gustavo Augusto Lima, embora instantes após a derrota tenha de comum acordo liquidado as transações comerciais que mantinha com o irmão adversário e providenciado sua transferência imediata para Fortaleza, de onde não mais regressou à cidade natal, aqui havendo falecido aos 3 de dezembro de 1938.
Em Fortaleza, além de político, veio a se destacar como comerciante, havendo, igualmente, se exercitado nas lides de jornalismo. Com o conhecido publicista Elcias Lopes, fundou, dirigiu e redatoriou o Jornal do Norte, cujo primeiro número circulou na capital cearense, aos 12 de abril de 1917.
Afastado da vida parlamentar, garantiu a seu filho Ildefonso Correia Lima a posse da cadeira que anteriormente ocupava na Assembléia Legislativa do Ceará, nas legislaturas de 1905 a 1908 e de 1909 a 1912 o que lhe assegura o domínio de uma cadeira de Deputado Estadual por vinte sucessivos e ininterruptos anos.
Fonte: MACEDO, Dimas. Lavrenses Ilustres. P, 40.






Ildefonso Correia Lima - Nasceu na então Vila de São Vicente Férrer das Lavras, no dia 7 de julho de 1860. Filho do Major Ildefonso Correia Lima e de D. Fideralina Augusto Lima.
Aprendeu as primeiras letras em sua terra natal, indo posteriormente estudar no Seminário Episcopal do Crato, de onde se transferiu para o Liceu do Ceará, em Fortaleza, onde esteve matriculado até 1879, quando seguiu para o Rio de Janeiro, em cuja Faculdade de Medicina se formou, em 1855. Perante a congregação de citada Faculdade, aos 28 de setembro do mesmo ano da formatura, defendeu tese intitulada “Dos Progressos Recentes na Operação de Litotrícia”, obtendo, dessa forma, o título de Doutor em Medicina.
Ainda como estudante, militou na imprensa carioca e teve ativa participação no seio da juventude estudiosa de então. Na corte foi colega de república e amigo particular de Rodrigues Alves e Afonso Pena, que mais tarde conduziriam os destinos políticos da nação. Posteriormente, quando Afonso Pena desempenhava o cargo de Presidente da República, perante o mesmo desfrutou imenso prestígio, a ponto de, este último, em passagem pelo Ceará, dever-lhe visita especial nos longínquos sertões de Quixadá, onde se encontrava à procura de saúde.
Ildefonso Correia Lima, desde a juventude, possuiu o carisma da liderança política e um potencial elevado de inteligência. Interno Extranumerário do Hospital de Misericórdia da Corte, em 1882 e, por concurso, interno de 2.ª e 1.ª classe do mesmo hospital, em 1883, 1884 e 1885. Igualmente por concurso, Ajudante de Anatomia Topográfica e Operações da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Relator da Comissão Cirúrgica do Ginásio Acadêmico e Sócio Honorário e Vice-Presidente do Grêmio dos Internos dos Hospitais da Corte.
Em Fortaleza possuiu imensa clientela que abandonou por algum tempo para ingressar na política partidária, sendo eleito Deputado Provincial no biênio de 1886 a 1887 e Deputado Estadual para o período de 1892 a 1893. Por duas legislaturas, representou o Ceará na Câmara Federal. Nessa fase de sua atividade política, pertencendo à falange católica, prestou relevantes serviços à causa da religião e da família brasileira, mormente na questão do divórcio. Chefe do Partido Republicano Conservador Cearense durante vinte anos. Orador de nomeada e médico de renome, no Congresso Nacional demonstrou notáveis qualidades de parlamentar e foi profícua a sua atuação, brilhando como tribuno tanto quanto como médico.
Outrossim, juntamente com outras figuras de destaque do meio cearense, fundou o Partido Católico do Estado do Ceará, oficialmente instalado em Fortaleza aos 8 de julho de 1890, cuja primeira diretoria integrou. Pertenceu ao Centro Republicano e, ao lado de Antônio Pinto Nogueira Aciolly, Agapito dos Santos e outros políticos de expressão da época, foi responsável pela fundação da secção cearense do Partido Republicano Federal, legalmente constituído na capital cearense a 1.º de junho de 1892. No Ceará foi ainda responsável pela fundação do Partido Federalista.
Posteriormente abandonou a política e entregou-se a profundos estudos, sendo, por nomeação de 31 de março de 1894, feito Professor Catedrático de Física e Química do Liceu do Ceará, que chegou a dirigir, interinamente, por designação de 10 de janeiro de 1896.
Jornalista de renome e cientista, publicou os seguintes trabalhos: Dos Progressos Recentes na Operação de Litotrícia – Rio – Tipografia Oliveira – 1885; Congresso Nacional – discurso parlamentar – Fortaleza, Tipografia Studart – 1897; Discurso – que pronunciou como paraninfo dos bacharelados de Ciências e Letras do Liceu do Ceará – Fortaleza – Tipografia Cruzeiro do Norte – 1909; e Física de Éter – Fortaleza – Tipografia Cruzeiro do Norte – 1912.
Envolveu-se com a questão religiosa de Juazeiro e, por designação do alto comando do clero cearense, foi escolhido em nome da mais atualizada ciência da época para oferecer juízo em torno dos supostos milagres ali ocorridos, atestando a sobrenaturalidade dos fatos.
Vítima de tuberculose, faleceu em Fortaleza aos 28 de fevereiro de 1911, sendo sepultado no Cemitério São João Batista desta cidade. Em seu testamento, que se encontra no Arquivo Público, legou Cr$ 1.000.000 para a Obra das Vocações Sacerdotais, tendo sido, desta forma, o iniciador desse movimento no Ceará, como observa Hugo Victor Guimarães.
Seu nome, com justa razão, é arrolado por alguns historiadores como um dos que mais se pontificiaram nas ciências médicas no Ceará, em todos os tempos. É o Dr. Ildefonso Correia Lima, cronologicamente, o primeiro médico nascido em Lavras da Mangabeira.
O Dr. Ildefonso Correia Lima é apontado por Leonardo Mota, no seu livro A Padaria Espiritual, como fundador, em Lavras da Mangabeira, de uma secção de um famoso Gabinete Cearense de Leitura. Mas ali, para Joaryvar Macedo, teria ele fundado, em 1884, o Club Literário Lavrense. Talvez ainda tangenciando o assunto, o Barão de Studart, nas suas Datas e Fatos Para a História do Ceará, informa que aos 11 de janeiro de 1885 foi inaugurada, em Lavras, uma biblioteca com o título de Clube Literário Familiar Lavrense, criada a 29 de maio de 1884. Ainda com respeito ao assunto, ver o nosso artigo “Notas Para a História da Literatura Lavrense”, publicado no n.º 28 da revista Itaytera, órgão do Instituto Cultural do Cariri.
Fonte: MACEDO, Dimas. Lavrenses ilustres. p, 43.




Francisco Correira Lima - Município onde a atuação política destaca-se como o principal elemento informador do seu processo civilizatório, Lavras da Mangabeira, a exemplo de outras comunas interioranas, nunca deixou de nos revelar uma história onde a presença do domínio oligárquico alcançou um dos seus mais lúcidos momentos de edificação.
Ali, pelo período de mais de um século, o poder serviu aos interesses dos Augustos, sendo, no decurso de várias gerações, disputado a nível das relações familiares, quer pacificamente ou pelo império da força, ou mesmo por via de transmissão hereditária, mesmo em que isso se constituísse em desobediência à ordem política estabelecida.
A grande maioria dos coronéis gerada por essa ambiência domiciliar vem de muito sendo cultuada como expressão de autoritarismo, principalmente pela projeção que alcançou a louvação das suas bravuras e vinditas.
Entretanto, em Lavras um coronel houve cujo padrão de honorabilidade em muito diverge do modelo usual de comportamento dos demais coronéis que, no âmbito municipal lavrense, instalaram a sua base de sustentação.
Francisco Augusto Correia Lima, filho de Fideralina Augusto Lima e do Major Ildefonso Correia Lima, ao mesmo tempo que pode ser tido como uma das mais expressivas figuras da história política de Lavras da Mangabeira, pode igualmente ser arrolado como uma expressão acabada de intelectual, de homem cujas virtudes assomam como exemplo de coerência e obstinação e como testemunho de fidelidade à causa da transformação da sociedade lavrense.
Nasceu ele em Lavras da Mangabeira, aos 27 de fevereiro de 1869, e faleceu na mesma cidade, aos 15 de setembro de 1952, onde, certamente, deve ter tomado o contato com as primeiras letras.
Vocacionado para o aprendizado humanístico, desde muito jovem transferiu-se para Fortaleza, aqui matriculando-se no Liceu do Ceará, onde concluiu os estudos secundários e realizou alguns preparatórios. Posteriormente, orientado pelo seu irmão Dr. Ildefonso Correia Lima, ultimou a sua transferência para o Rio de Janeiro, ali ingressando, mediante prévia seleção, no Curso de Bacharelado de Ciências e Letras do tradicional Colégio Pedro II, sendo naquele estabelecimento de ensino aluno do renomado filósofo brasileiro Carlos Laet, de quem herdou o gosto pela erudição e pelo cultivo do francês e do idioma pátrio.
Regressando ao Ceará, residiu por algum tempo em Fortaleza, indo se fixar posteriormente em sua terra natal, onde viria a se destacar pela excelente performance política e pelos decantados arroubos da sua vasta e polimorfa inteligência.
Com efeito, em reconhecimento aos seus predicados cívicos e morais, por Decreto de 29 de outubro de 1898, referendado por Carta Patente de 20 de julho de 1899, do então Presidente da República Dr. Manoel Ferraz de Campos Sales, seria nomeado para o posto de Tenente-Coronel Comandante do 28.º Batalhão da Infantaria da Guarda Nacional da Comarca de Lavras da Mangabeira.
Em sua terra de berço, além de comandante de milícias da reserva do exército, destacou-se como político e orador vigoroso, ali igualmente exercendo o ofício de professor, de Juiz Municipal Suplente e de Promotor Público da Comarca, e as funções do cargo de Advogado Provisionado e chefe da edilidade municipal, no período de 06 de setembro a 09 de novembro de 1920.
Conhecido latinista e estudioso profundo da língua francesa, além da militância política desempenhou as atividades de agricultor e pecuarista, bem como a de oráculo das facções oposicionistas reinantes no Município.
Em Lavras fez frontal oposição ao mandonismo político então imperante, colocado-se sempre ao lado das mais avançadas iniciativas da comunidade, mesmo tendo que ferir as aspirações dos mais poderosos representantes do situacionismo local.
O Coronel Francisco Augusto Correia Lima casou-se, em primeiras núpcias, com Josefa de Morais Lima (Sinhá), nascida em Lavras da Mangabeira, aos 24 de agosto de 1871, e falecida na mesma cidade, aos 03 de setembro de 1907, e, em segundas núpcias, com Luíza Rolim de Morais, igualmente lavrense, nascida aos 19 de março de 1875 e falecida aos 20 de maio de 1950, filhas, ambas, de Manoel Carlos de Morais e de Dona Josefa Rolim de Morais.
Seu centenário de nascimento foi solenemente comemorado em Lavras da Mangabeira, aos 27 de fevereiro de 1969, oportunidade em que o seu nome foi aposto em uma das ruas da sua cidade de berço. Na oportunidade, coube ao escritor Raimundo de Amora Maciel, genro do homenageado, e membro da Academia Cearense de Letras, a incumbência de proferir a oração oficial, assinaladora do evento, ao qual compareceram grande ajuntamento de pessoas do povo, autoridades, amigos e familiares do pranteado lavrense.
Fonte: MACEDO, Dimas. Lavrenses Ilustres. p, 53.




Cel. Gustavo Augusto Lima -Chefe político de grande prestígio, alto comerciante e agricultor abastado, um dos mais prestigiosos homens do Sul do Estado, nasceu Gustavo Augusto Lima em Lavras da Mangabeira, aos 23 de agosto de 1861. Filho da destemida e famanaz D. Fideralina Augusto Lima e do Major Ildefonso Correia Lima.
Como o avô e como a mãe, nasceu o menino Gustavo um exemplo perfeito de temperamento político, sobressaindo, assim, o maior entre todos os políticos da oligarquia implantada pela família em Lavras da Mangabeira e que perdurou por mais de um século. Casado com sua prima Joana Augusto Lima, filha do Cel. Simplício Carneiro de Oliveira e Dulcéria Augusto de Oliveira.
Aprendeu as primeiras letras em sua terra natal e posteriormente foi concluir o seu aprendizado humanístico em Cajazeiras, na Paraíba, no tradicional Colégio do Padre Inácio de Sousa Rolim. Mas sentindo-se vocacionado para a política, regressou à cidade de Lavras da Mangabeira, onde viria a exercer o cargo de Coletor das Rendas Provinciais do Município e o de Membro do Conselho de Intendência Municipal, sendo, já em começos do presente século, nomeado Delegado Municipal do Partido Republicano Conservador.
Gustavo Augusto Lima foi uma figura ímpar na política cearense da sua época. Filiado ao Partido Republicano Conservador do Ceará, “comandava e dispunha de um terço do eleitorado cearense”. Conhecido pela sua pertinácia política, participou com grande contingente de homens para o êxito da Revolução de 1914 que derrubou o governo Franco Rabelo no Ceará.
Membro da Primeira Companhia do Batalhão da Guarda Nacional da Comarca de Lavras da Mangabeira, por patente de 07 de outubro de 1889, em substituição a Tomaz Duarte Aquino, em 26 de novembro de 1907, ajudado pela sua mãe D. Fideralina Augusto Lima, derrubou do poder local seu irmão Tenente-Coronel Honório Correia Lima, assumindo, dessa forma, a chefia da Intendência e o poder político supremo de Lavras da Mangabeira, cujo Município administrou como quis.
Posteriormente, eleito Deputado à Assembléia Legislativa do Ceará, nas legislaturas de 1915 a 1916, de 1917 a 1920 e de 1921 a 1923, o Cel. Gustavo Augusto Lima foi por esse tempo Líder do Governo na Assembléia, Presidente da mesma Assembléia e Vice-Governador do Ceará, tendo exercido cumulativamente a função de prefeito municipal de Lavras, nomeado por ato de 21 de março de 1914, cujo exercício efetivo não assumiu, pois há muito era feito senhor absoluto. No cargo de prefeito efetivou-se na legislatura municipal de 1916 a 1920, revestindo sempre as características do mandonismo e tomando partido nas disputas que sacudiram as estruturas políticas do Ceará do seu tempo.
Senhor de extensos domínios territoriais e políticos, tem sua presença assegurada na história do mandonismo que abalou as estruturas do Ceará, nas primeiras décadas deste século, principalmente pela sua resistência ao ataque à cidade de Lavras da Mangabeira, por cento e cinqüenta homens comandados por Joaquim Vasques Landim, aos 07 de abril de 1910, defendendo violentamente o burgo ameaçado pelo império dos maiores coronéis do Cariri e consolidando, assim, a sua posição perante os mais diversos segmentos da vida política e administrativa do Ceará.
O Cel. Gustavo Augusto Lima, representando o Município de Lavras da Mangabeira, fez-se igualmente partícipe do famigerado Pacto dos Coronéis, assembléia política realizada na então Vila de Juazeiro do Norte, sob os auspícios do Padre Cícero Romão Batista, aos 04 de outubro de 1911, sendo, no ato, representado pelo seu filho, Coronel João Augusto Lima.
Apesar de seu prestígio político e do cargo de Deputado Estadual que ocupava, o Cel. Gustavo Lima foi alvejado a tiros de revólver, na Praça do Ferreira, em pleno centro comercial de Fortaleza, a 28 de janeiro de 1923, vindo a falecer a 01 de fevereiro, na Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza, sendo sepultado no Cemitério São João Batista desta cidade. É vastíssima a crônica histórica que se tem escrito em torno de sua pessoa e do seu assassinato. Embora alguns vejam mistério em sua morte, como o escritor Gustavo Barroso, o certo é que ela foi um reflexo de acontecimentos ocorridos em Lavras da Mangabeira aos 09 de janeiro de 1922.
Fonte: MACEDO, Dimas. Lavrenses Ilustres. p, 45.





Fideralina Augusto Lima -Nasceu na Vila de São Vicente Férrer das Lavras, no dia 24 de agosto de 1832, filha de Isabel Rita de São José e do Major João Carlos Augusto.
Pelo lado materno, era bisneta de Francisco Xavier Ângelo, Capitão-Mor e Comandante-Geral da Vila de São Vicente Férrer das Lavras. Filha mais velha dentre os onze irmãos. Casada com o Major Ildefonso Correia Lima, Capitão da 1ª Companhia do Batalhão nº 28 e Major Fiscal da Guarda Nacional de Lavras. Tiveram doze filhos. Senhora de inúmeras propriedades rurais no município e prédios residências na Vila, muito gado e muitos negros que o serviam como escravos. Criou seus filhos sozinha, pois ficou viúva muito cedo, deu-lhes rígida educação que primava pelo respeito e obediência. Gostava de trabalhos manuais, como fiar, fazer varanda de rede. Era muito religiosa, rezava o Ofício de Nossa Senhora e, quinzenalmente, assistia a missa que mandava celebrar na capela da sua propriedade (Tatu). Teve uma participação ativa na vida política e social do Ceará, com todas as prerrogativas de coronel latifundiário. Sendo respeitada como tal. Fideralina levava sempre consigo um bacamarte ou garrucha, nas caminhadas andava a cavalo ou de liteira, contava para sua guarda e proteção, homens corajosos e hábeis no manejo das armas, conhecidos como “os cabras de Dona Fideralina”. Faleceu no dia 16 de janeiro de 1919, no Sítio Tatu, em Lavras da Mangabeira.




Francisco Xavier Ângelo - capitão-mor da Vila de São Vicente das Lavras, natural de Mamanguape, filho natural de Ana Maria Cardoso. O primeiro matrimônio de Xavier Ângelo foi no dia 19 de abril de 1773, pelas cinco horas da madrugada, na Igreja Matriz do Icó, com Ana Rita de São José, natural da Freguesia do Icó e filha legítima do Sargento-Mor Francisco de Oliveira Banhos e Maria José Jesus. Receberam as bênçãos conforme Ritual Romano do reverendo Vigário Félix José de Morais. Desse matrimônio nasceram os filhos dos quais descendem as famílias de Lavras da Mangabeira. Pe. Joaquim José Xavier Sobreira (Membro da Constituinte de 1822, no Rio de Janeiro); Pe. Cosme Francisco Xavier Sobreira; Pe. Francisco Xavier Gonçalves Sobreira; Antônia Francisca Cândida; Manuel Joaquim Xavier Sobreira; Ana Josefa da Conceição; Manuela Francisca de São José. Muitas foram às tragédias que sucederam nessa família como também muitas glórias. Aos 28 de abril de 1817, faleceu Ana Rita, esposa de Xavier Ângelo, moradores do Sítio Logradouro, de 58 anos de idade. No dia 27 de outubro do mesmo ano, Francisco Xavier Ângelo contraiu segundas núpcias com Cosma Francisca d'Oliveira Banhos, lavrense, filha de Francisco de Oliveira Banhos e Ana Rosa de Oliveira Banhos e irmã do Major João Carlos Augusto. Xavier Ângelo, morre em 1827, em conseqüência de traumatismo moral, ocasionado pela infidelidade da jovem esposa. Segunda tradição lavrense, o Capitão ter-se-ia confinado em um dos aposentos de sua casa de residência, no Sítio Logradouro, morrendo dias depois.
Fonte: MACEDO JOARYVAR. São Vicente das Lavras. p. 46

domingo, 9 de outubro de 2011

A Brisa do Salgado - Emerson Monteiro


Este o título de outro livro do autor Dimas Macedo, telúrico lavrense de quatro costados e raízes fincadas às margens do rio de nosso querido rincão. Devotado à vida de Lavras da Mangabeira de tantos acontecidos e personagens, aprofunda ação no amor à terra, em estudos e registros do universo que lhe convida a momentos definitivos das páginas que escreve com ânimo acendrado. Prolífico, incansável, preserva as relíquias desse lugar, consagrado aos irmãos de uma terra reconhecida pelas letras, de inúmeros títulos, poetas, contistas, cronistas, romancistas, memorialistas, nascidos ou vividos no seio do tórrido continente.

E Dimas se entregou à função de maestro da orquestra multiforme... Escriba primoroso, dedicado, proficiente, recolhe peças elaboradas pelo esmero daqueles heróis da pena, e constitui o acervo da literatura que descobre aos filões na alma dessa gente... Traça rumos, pesquisa, referenda, artífice intelectual da Academia Lavrense de Letras, exemplo vivo de cultor da arte a quem oferta sonhos de inteira devoção.

O livro que hoje nos traz, edição da Imprece Editorial, Fortaleza CE, 2011, consolida posições por meio de crônicas e ensaios inspirados, visando significar o rumo saboroso dos quintais férteis do Rio Salgado, cujas águas acariciam os morenos pés das musas da pátria ressequida. Ainda que envolto nos afazeres profissionais, se permite a instantes preciosos de laborar espelhos de sapiência e monta e totalidade lógica dos discursos textuais coletivos.

Converge, pois, linhas do tempo e do espaço lavrenses na colcha de retalhos dos filhos próximos ou distantes, vivos ou eternos, presentes ou para sempre destacados pela fraternidade, instrumentos afeitos à batuta do grande amigo que resolveu doar genialidade aos amantes das letras interioranas, literatura ao natural.

Um inesquecível cronista das terras alencarinas, poeta, ensaísta e historiógrafo, Dimas Macedo assim subscreve a legenda de que Lavras da Mangabeira se reveste qual cidade fenômeno das letras cearenses, pela incidência privilegiada na relação autores/habitantes no decorrer da sua história, satisfação e honra dos apreciadores da cultura.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Minha avó Lídia - Emerson Monteiro


Ouvia Mulheres de Atenas, na voz de Chico Buarque, quando retornou às minhas lembranças a forte presença da mãe de meu pai, Lídia Augusto Leite, neta de Fideralina Augusto, de quem coube herdar a casa grande do Tatu, onde esta vivera, sítio em que nasci e fiquei até os quatro anos.

Para seguir o meu avô havia de ser realista das chagas do sertão áspero. Resignada, de gestos austeros e sempre silenciosos, mantinha a existência dos movimentos que representavam o cotidiano das almas penadas que tangiam o troar de moedas e o trancilim dos animais no carreto da cana, dos pastos para o gado, correria das ovelhas e o ritual da igrejinha lá no alto, próxima da casa dos meus pais, no outro lado da enorme bagaceira do engenho. Quase surda, falava mais aos gritos. E nós, os netos, lhe respondíamos: - Vó, quem é mouca é a senhora. Não precisa falar assim dessa altura.

Mulher de fibra, estruturava o sistema desse mundo ensolarado. Mãe doze vezes, apenas nove dos filhos permaneceriam vivos. Feições de sertaneja puxadas a índio bravio, seus olhos não olhavam, fuzilavam os personagens em volta, acesos no fogaréu da faina humana que enfeixavam a cena.

Recordo a simpatia com que tangia a intimidade da família, de riso raro a quebrar um pouco o peso da autoridade do meu avô, seu primo, também neto de Fideralina. A varanda era palco de tudo, vindas e idas de tantas ocasiões, e porto seguro das atividades rurais.

Quando precisou limpar a capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, recebeu da filhas, que moravam no Rio de Janeiro, caixas e mais caixas de prendas leiloadas em quermesse no terreiro da casa, com a presença de visitantes dos sítios próximos e de Lavras, a uma légua no lombo das montarias.

Firme nos propósitos, sofreria resignada a saudade dos filhos. Meu pai saiu bem depois, vindo morar em Crato. Eles permaneceriam ainda um pouco no lugar. Adiante lhe seguiriam. Seriam nossos vizinhos de quase duas décadas. Novamente os frequentei como assíduo participante de suas vidas.

Sentava junto deles para testemunhar o fluir solene do tempo naquelas silhuetas marcadas de cicatrizes reunidas ao sabor da cumplicidade. Nisso, ouvia as histórias do meu avô, enquanto ela outra vez regia a orquestra da casa, solícita, perene, corajosa.

Após cumprir os afazeres, parava na porta da rua a observar raras pessoas nas calçadas; os automóveis só de longe começavam a dominar a paisagem urbana. Antes dela, meu avô seguiria na última viagem. Ficara ali ausente e metódica. Durante longos e aflitos 33 dias, permaneceu em coma, protelando o derradeiro chamado qual quem gostaria de continuar a temporada que passou junto de nós.

domingo, 25 de setembro de 2011

As cidades de Chico Buarque - Emerson Monteiro


Cristina Couto reuniu em livro (As cidades de Chico Buarque) fragmentos de uma época histórica do Brasil recente e intercalou-os com páginas das músicas de Chico Buarque de Holanda e. deste modo, criou belo painel que bem representa a fase crítica dos anos de chumbo. Nas marcas que anotou dos passos do poeta nos bastidores da convulsa vida nacional, a escritora conta em linguagem eficiente o que vencíamos do medo e da censura feroz para trazer ao povo os espelhos urbanos que alimentavam apreensivas esperanças e resistência.

Perante o jeito que exercita, Cristina de Almeida Couto, membro da Academia Lavrense de Letras, professora universitária e jornalista, consolidou no seu trabalho a escritura poética de Chico Buarque na visão acadêmica suficiente de dizer o que aconteceu no imaginário da criação artística, contradições e vislumbres doridos, na fase extrema, totalitária. Caminhava-se pelas ruas deserdados; atravessavam as lamúrias de um modelo econômico de época, à força dos poderes internacionais na república ansiosa de algum crescimento material.

Talhes profundos, no entanto, feriam por dentro a alma, sobretudo de jovens da classe média embalados nos sonhos imaginários de liberdades civis ideais, frustradas na quebra institucional da luta brasileira.

Trabalhou com êxito o tema desse encontro das duas vertentes, do real no cotidiano, e das letras que o interpretavam através palcos e discos, a transmitir vozes gritadas ao enlevo dos ritmos novos – misturas de samba do morro, bossa nova e inventividade nativa.

Feliz a executar o projeto estabelecido, Cristina nos permite viver ou reviver a composição popular no mister desses acontecimentos, versão do coração de quem atendeu consignar a poética na história dos vencidos daqueles instantes.

Uma viagem técnica e sentimental, pois, através das letras das cantigas... exercício de fixação salutar e digno de quem deseja guardar as lições amargas da nossa geração urbano-industrial.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A SEGUNDA GUERRA DO AFEGANISTÃO - Emerson Monteiro


Dia seguinte a longa viagem que, por terra, realizara a Brasília, na manhã do dia 11 de setembro de 2001, uma segunda-feira, trabalhava na Universidade Regional do Cariri por volta das 10h30, quando Sávio Cordeiro, colega de sala veio me trazendo a notícia: Ocorreram atentados nos Estados Unidos, com explosões no Pentágono e nas torres do World Trade Center.

- Começou a Terceira Guerra Mundial - disse ao transmitir os incidentes verificados minutos antes. - Terroristas acabaram de jogar aviões Boeing 767 contra esses alvos estratégicos da América...

Isso me pegara de chofre qual um soco na boca do estômago. Senti espécie de vertigem, frieza no corpo, compreendendo que algo sério ocorria no mundo daquela hora, tempos estritos da dominação do forte sobre o fraco e intensa produção bélica. Em princípio, parecia confirmar a lógica da luta pelo poder na Terra, a qualquer preço.

Procurei demonstrar naturalidade, no entanto... Mas eu mesmo sei o que se passava da cabeça ao coração. Algo sinalizava a gravidade das informações. Daí a pouco, fui saído de mansinho para, próximo dali, encontrar Danielle e as meninas, na Escola Semear, e nos dirigirmos à casa de meus pais, onde almoçaríamos naquele dia.

O peso dos acontecimentos viria com mais intensidade à frente da televisão, na sala onde todos da casa se reuniam a testemunhar o decorrer dos acontecimentos. Comentava com meu pai o assunto quando, ao vivo, ruía a primeira torre. Na cena, avião que volteava nos céus 18 minutos depois do primeiro impacto, impassível, atingiu a segunda torre gêmea, quase a traspassá-la, cena mostrada qual cena de ficção. Outro avião cheio de passageiros há pouco teria sido interceptado sobre o Estado da Pensilvânia. Noticiava-se que outros aviões ainda se achavam desaparecidos. De tudo aquilo deixando um gosto ferrugento na minha boca. A emoção do imprevisível parecia tomar conta da Eternidade.

Antes de vir para casa, nessa tarde, por volta do meio dia, passaríamos para visitar um amigo, Gerardo Junior Lopes, no Grangeiro. Na sua casa, todos também observavam as imagens que se repetiam na televisão, cenas dantescas de destruição em Nova York e Washington.

Após tais instantes, lembro das muitas notícias e da expectativa mundial de como reagiria a nação americana em face do desafio anônimo dessas ações. Logo se iniciava perseguição ao suspeito número um, o líder árabe Osama bin Laden, milionário saudita que lutara contra os russos na primeira guerra do Afeganistão, isto sob os auspícios dos próprios Estados Unidos. A facção que apoiara e saíra vitoriosa, Talibã, ocupava quase o país inteiro, estabelecendo regime de terror à base do fundamentalismo islâmico.

Nos desdobramentos, meses sequentes, americanos e ingleses invadiriam o Afeganistão para destituir do poder aquela facção dominante. Subiriam montanhas, explorariam cavernas distantes, à cata do autor dos atentados, até que, passados nove anos, em Abbotabad, no vizinho Paquistão, eliminariam o responsável pelos abalos de 11 de setembro de 2001.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Lavras da Mangabeira conta sua história - Emerson Monteiro


Numa iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Turismo, a Prefeitura de Lavras da Mangabeira iniciou, sábado, 20 de agosto de 2011, os trabalhos que visam aprofundar estudos relativos ao conhecimento da rica história daquele município.

Comuna das mais antigas do Ceará, elevada a vila em 20 de maio de 1816, Lavras detém um passado de expressivos acontecimentos, desde quando chegara o seu fundador, capitão-mor Xavier Ângelo, procedente da Paraíba do Norte, aos feitos legendários da matriarca Fideralina Augusto Lima, das primeiras mulheres que assinalaram a vida brasileira nos primórdios da colonização do interior, pela fibra de coragem e liderança altiva diante das agruras do semiárido nordestino.

Visando, pois, a preservação desses valores históricos que definem as origens de famílias e instituições, nas formações locais, a prefeita Edenilda Lopes de Oliveira Sousa (Dena) e Miriam Linhares de Sá e Sousa (Manta), secretária de Cultura do município, organizaram mesa redonda composta por membros da comunidade, autoridades e titulares da Academia Lavrense de Letras, visando debater fatos históricos que definem a estruturação de um futuro seminário sob o tema História de Lavras da Mangabeira – Valores, Cultura e Artes da Cidade, do Município e Região.

Ao término dos estudos, será elaborado vasto documento que consolidará os feitos dos povos do lugar considerados os pontos de vista religiosos, econômicos, políticos, educacionais, científicos e turísticos.

Esse primeiro evento ocorreu nas dependências da Escola Estadual de Educação Profissional Professor Gustavo Augusto Lima (ex-Colégio Agrícola de Lavras da Mangabeira), em solene reunião presidida pela professora Fátima Lemos, da Academia Lavrense, com a presença da chefe do Executivo, professora Edenilda Lopes, do deputado estadual Danniel Oliveira, educadores, representantes do Legislativo, autoridades civis e religiosas, profissionais liberais e de um bom público, os quais prestigiaram a realização.

Ao empreender essas pesquisas, os lavrenses demonstram sentimento cívico e exemplo pedagógico, aprimorando meios de desenvolver e educar as novas gerações numa louvável providência.

quarta-feira, 23 de março de 2011

MOVIMENTO ESCOLAR

A existência de sala de aulas na vila de São Vicente das Lavras é datada de 1827. Conforme Movimento Escolar de 1822 a 1834, dos trinta professores públicos do Ceará, dois exerceram as funções em Lavras: o Padre Manuel da Silva e Sousa, nomeado para o cargo de professor aos 3 de abril de 1827, e Antônio Joaquim dos Santos, nomeado em 12 de dezembro de 1832. Eram remunerados anualmente com a quantia de 300$000, e as escolas destinavam-se apenas ao sexo masculino.
Com a Lei Nº. 765, de 8 de agosto de 1856, criava escolas para o sexo feminino em Lavras, na Telha (Iguatu) e em Canindé.
Muitos foram os ofícios enviados ao Diretor e ao Secretário do Liceu do Ceará e ao Diretor Geral da Instituição Pública do Ceará por professores e inspetores que atuavam na área da instituição pública em Lavras, informando das dificuldades que enfrentavam naquele Município, conforme relata a escritora, Rejane Augusto Gonçalves, em seu Livro Lavras da mangabeira, Um marco Histórico.

Cadeiras do Sexo Masculino:

Marcelino Lopes Benevides – de janeiro 1848 a 1852.
João Clemente Barbosa de Moraes – de novembro de 1852 a outubro de 1863.
Padre José da Costa – Professor Interino, de julho a dezembro de 1855.
Gregório Taumaturgo da Silva Pereira - Professor Interino, de abril de 1856 a maio de 1857.
Antônio de Lima Gomes dos Santos – de dezembro de 1869 a outubro de 1876.
Florindo Freire da Silva – nomeado em junho de 1876, com exercício até dezembro de 1883.
José Afonso Pereira Moreno – nomeado em 6 de maio de 1892, com exercício em 15 de junho de 1892.
Francisco Gonçalves Dias Sobreira – nomeado em 24 de janeiro de 1895, sem data registrada de exercício.

Cadeiras do Sexo Feminino

Generoza Cândida de Albuquerque – Professora interina, de março de 1857 a março de 1863.
Francisca de Mendonça Albuquerque Moraes – janeiro de 1868 a dezembro de 1883.
Amélia Augusta de Moraes – Entrou em exercício para exercer interinamente a Cadeira do sexo feminino em 5 de outubro de 1882.
Balbina Lydia Viana Arrais – Sem data de nomeação, e com exercício em janeiro de 1888.
Joaquina Isaura de Carvalho Pessoa – nomeada em 17 de março de 1892, sem data de exercício.
Francisca de Matos Forte – Nomeada em 4 de abril de 1892, sem data de exercício.
Ana Frota – Diplomada. Nomeada em 5 de julho de 1892, com exercício em 12 de agosto de 1892.
Amélia da Rosa Carvalho – Nomeada em 11 de junho de 1880, sem data de exercício.

Inspetores das Aulas de Primeiras Letras da Vila de Lavras
José de Souza Matos – dez/1844 a jun./1853.
Vigário Luiz Antônio Marques – jun./1853 a 1856.
Vicente Ferreira de Araújo Lima – set/1856 a 1864.
Vigário Antônio Pereira dOliveira Alencar - 1864 a 1865.
Antônio Joaquim de Souza Rolim – 1866 a 1875.

Inspetor Literário da Comarca de Lavras:
Joaquim de Andrade Fortuna Pessoa – jan./1875 a 1877.

Inspetores Escolares da Cidade de Lavras
José Joaquim de Maria Lobo - 1884 a 1888.
Antônio Elysio de Holanda Cavalcante – dez / 1888.
Dr. Arnulfo Lins e Silva – Nomeado em 27/07/1905 e demitido em 27/04/1907.
Dr. Luiz Cândido de Oliveira – Nomeado em 27/04/1907.
Dr. Olívio Dornelas Câmara – Nomeado em 11/01/1909 e demitido em 23/06/1909.
Dr. Alfredo de Oliveira Polari – Nomeado 28/04/1910 e demitido em 12/08/1912.
Dr. José Beltrão A. Carneiro - Nomeado em 30/09/1911 e demitido em 08/03/1917.
Francisco Augusto Correia Lima - Nomeado em 08/03/1912 e demitido em 13/04/1914.
João Rodrigues Fonseca - Nomeado em 13/04/1914.

Nomeados em 11/07/1905:
Major João Rodrigues da Fonseca;
Tenente Coronel Manoel Pedro Pinheiro;
José Alves Bezerra;
Capitão Antônio Ferreira de Araújo Filho.


INSTRUÇÃO PÚBLICA

Em março de 1947, a inundação de Lavras pelo Rio Salgado, destruiu ruas inteiras, inclusive o prédio do Grupo Escolar, levando todo o arquivo, causando prejuízos irreparáveis. A falta de documentação, a história da instituição pública se restringiu a depoimentos de antigos professores e alunos.
O Grupo Escolar era localizado na Sede Municipal, com 6 estágios, que constituíam o Curso Primário: Seção “A”, Seção “B”, 1º, 2º, 3º e 4º anos. Eram adotadas: a Carta do ABC, Cartilha do Ensino Rápido da Leitura, Livro de Sinônimos, Livro João Pergunta, Livro Através do Brasil e outros, afora os pontos de Geografia, História do Brasil e Aritmética. Tais pontos eram ilustrados com álbuns seriados, quadro negro e giz e os ensinamentos de Geometria eram auxiliados por peças de madeira polida, tais como: esfera, trapézio, triângulo, cubo, quadrilátero e outros.
Além do Grupo Escolar, havia duas escolas isoladas, dirigidas pela professora Loreto Banhos, no bairro do Rosário, e a outra por Cenci Bezerra, na Rua da Umarizeira. Existiam mais duas escolas particulares para rapazes e moças que queriam estudar em Crato, em Fortaleza, Recife e em outros centros onde existissem colégios, ginásios. Os alunos eram preparados pelo professor João Augusto Banhos. Um professor idoso, de nome Sebastião, também dava ensinamentos a quem quisesse estudar a noite em sua residência, na conhecida Rua da Praia.
O Grupo Escolar funcionava num grande casarão, com 6 janelas de frente e uma porta de acesso, no final da Rua Major Idelfonso, onde foi construído, posteriormente, o prédio dos Correios e Telégrafos. O prédio era isolado em ambos os lados. Um sótão, com 3 janelas laterais servia de forro a toda a estrutura. Era Diretora D. Rosa Ferreira que, por não praticar o catolicismo, em pouco tempo foi removida para outra cidade, por haver se tornado antipatizada perante a sociedade católica. As professoras D. Zefinha Sobreira, D. Clarinha Hermes, D. Edite Braga, D. Francisca Morais Falcão, D. Guiomar Benevides e D. Rosária Augusto Mota formavam o corpo docente. Pelo ano de 1930, o Grupo Escolar mudou-se para um prédio novo, no fim da Rua Municipal, hoje Rua Cel. Raimundo Augusto. Novas mestras constituíram o corpo docente, como: professoras Maria Luíza Lima, Maria Luíza Forte, Moreninha Augusto, Terezita Bezerra, Nildes Gurgel, Dulce Férrer Linhares, Nilce de Almeida Seixas, Alda Férrer Augusto e outras. O ensino era inspecionado pelo Padre Raimundo Augusto Bezerra que fiscalizava o estabelecimento; e ele mesmo aplicava nos alunos várias tipos de vacina existentes, como anti-variólica. Outro que também fazia o trabalho de inspeção era o Inspetor Militão, que residia na cidade vizinha de Cedro. D. Anunciada Coelho, era auxiliar de serviços gerais, baixinha, de cocó, batia a sineta, chamando os alunos do recreio para sala de aula. Havia passeata pelas ruas da cidade nas datas cívicas, portando-se o Pavilhão Nacional.
Em princípios de 1947, grande inverno alegrava o Ceará. O Rio Salgado, o maior afluente da margem esquerda do Rio Jaguaribe, transbordou pelas suas margens e, invadiu a cidade, destruindo, aproximadamente, um quarto de suas edificações. O Grupo Escolar, situado na Rua Municipal, foi arrastado pela correnteza das águas barrentas do Salgado e tudo se perdeu na tragédia, ficando apenas a lembrança em tanta gente que ali estudou. Tudo isso ocorreu em 28 de março de 1947. Emar Matos Rolim, era o prefeito, e o Governador eleito e empossado era o Desembargador Faustino de Albuquerque e Sousa, que fez expedir, de Fortaleza, num trem, víveres, mantimentos, remédios e outros tipos de socorro à população necessitada. Um vagão desse trem conduzia um pelotão do Corpo de bombeiros e Sapadores do Ceará para sanear a cidade e socorrer a gente sofrida. (depoimento do lavrense José Hermes Monteiro).
Na cidade de Lavras de 1930 – 1936 não havia nenhum colégio ou instituição oficial de ensino além do Grupo Escolar e classes isoladas de alfabetização. O Grupo Escolar, escola pública, era o estabelecimento de maior relevância, senão o único, na cidade, que recebia como alunos os filhos das famílias locais e dos distritos.
As escolas eram independentes, pois não havia Secretária Estadual de Educação, apenas um Departamento de Educação agregado a Secretária do Interior e Justiça a qual monitorava os estabelecimentos de ensino através de uma Inspetoria representada pela figura do Inspetor Escolar.
O Grupo Escolar de Lavras era e até nos dias atuais poderia ser considerado modelo. O prédio atendia aos requisitos da moderna pedagogia: isolado, salas amplas e confortáveis, bem iluminados. Estava localizado na Rua da Câmara, depois Rua Municipal e era o último prédio daquela artéria.
O Grupo contava com excelente corpo docente, constituindo pelas professoras:
Francisca Freire Falcão (Da. Francisquinha), que tinha a seu cargo a classe de alfabetização e assumia a tarefa de catequista, Edite Morais Teixeira, Neusa de Lima Ceará, Maria do Rosário Augusto Mota, Guiomar de Holanda Férrer, Enoe Cordeiro e Maria Luíza de Lima. Eventualmente, funcionavam como substitutas Cency Bezerra e Isa Gondim Santos.
Enérgica, operosa, Da. Maria Luíza imprimiu aquela escola o caráter de verdadeira casa de educação. Ao recordar Da. Guiomar Férrer é justo que falemos da dedicação ao ensino, seu empenho em conduzir com eficiência a classe que lhe fora destinadas. No tempo a que se referem estas notas, o aluno, para obter classificação a série superior a que cursava, submetia-se a exames orais e escritos.
O currículo escolar compreendia farta programação de atividades extra-classe: jogos, ginástica, apresentações dramáticas, recitativos e cânticos especialmente de hinos patrióticos.
Além do Grupo Escolar, funcionavam nos bairros escolas isoladas, uma das quais se localizava próximo a Estação da Rede de Viação Cearense – RVC e era dirigida por Maria do Loreto Banhos.
Entre as escolas particulares freqüentadas por alunos de vários níveis de adiantamento, distinguia-se a do Sr. João Augusto Banhos, professor de notável preparo intelectual. Recebia alunos para o curso Preparatório aos Exames de Admissão que se realizavam em Crato, Fortaleza e Cajazeiras, na Paraíba.
Havia, também, a escola do professor José Luiz da Silva Ramos, onde se matriculavam, sem seleção de classes, alunos de qualquer nível de adiantamento. Era de menor receptividade, somente algumas pessoas matriculavam seus filhos naquela escola. Sr. José Luiz, era um homem simples, funcionários dos Correios, entretanto, poucos sabiam como ele conduzir a aprendizagem até o aluno alcançar completa compreensão do assunto.
Na Rua da Praia, depois na Travessa Santos Dumont, em casa do Sr. Joaquim Lobo de Macedo, funcionou uma escola, destinada a adultos, sob a regência da inteligente poetisa Julieta Filgueiras.
O aprendizado do Catecismo Católico, obrigatório naquele tempo. Era realizado as terças-feiras, quando soava o sino da Matriz, às 4 horas da tarde, sob a direção da professora Da. Francisquinha Falcão a meninada se juntava na Igreja para aula de catecismo ministrada pelo vigário Pe. Mundoca.
Após a classe, o Sr. Clodoaldo Bezerra sentava-se ao harmônio e tocava alguns hinos, algumas vezes o Sr. Hermes Monteiro (seu Cazuza) o acompanhava ao violino. (Depoimento da escritora lavrense, Neide Freire).
Fonte:(Extraído do Livro “Lavras da mangabeira – Um Marco Histórico” de Rejane Monteiro Augusto Gonçalves).

sexta-feira, 11 de março de 2011

LAVRAS E SEUS ANTIGOS LOGRADOUROS.

Antiga Praça Cel. Gustavo Augusto Lima, ao fundo a Rua Mons. Miceno.




Fotografia da década de 1930 ou começo da década de 1940. A principio Rua da Praia, depois Rua Santos Dumont e hoje Wilson Sá. Na esquina a direita prédio comercial que pertenceu a familia Pinto Nogueira, depois Nequinho Almeida. Ao fundo a Rua da Beira do Rio, destruída pela enchente de 1947.



Antiga Rua 7 de Abril, hoje Rua Hilda Augusto Sucupira. Popularmente conhecida como Rua do Alto.









Antigo aterro que sirviu muitos anos como Campo de Futebol. Ao fundo Chalé do Cel. Raimundo Augusto, CREL - Clube Reacreativo Lavrense, Correios e Telégrafos. A direita Rua Hilda Augusta.






Foto da década de 1970 da antiga Rua da Cadeia, depois Rua Gel. Paranhos e hoje Rua Cel. Raimundo Augusto.






Antiga Rua dos Alpendres e na década de 1950 passou a se chamar Travessa São Vicente Ferrer. Hoje Travessa Pe. Alzir Sampaio. A esquerda antigo ambulatório mantido pela Paróquia de São Vicente Ferrer e a direita residência do Sr. Heinar Matos.













quarta-feira, 9 de março de 2011

CURIOSIDADE DE LAVRAS

Em 1985, durante uma Semana Universitária promovida pela ASSULAM (Associação dos Universitários de Lavras da Mangabeira), usando da criatividade e inteligência que é peculiar dos lavrenses os universitários realizaram uma exposição em praça pública, contendo objetos, fotografias, poesias, cordéis e curiosidades da cidade. Em um mural estavam expostas muitas folhas de papeis e nelas escritos nomes de lavrenses divididos por seções conforme categoria a qual pertencia. Por achar muito criativo resolvi copiar para meu arquivo pessoal e para posteridade. Vejamos:

1. SEÇÃO MATERIAL DE CONSTRUÇÃO
Chico Barro
Xavier Arreia
Antônio Machado
Chico Caterpila
Pé de Roçadeira
Prego
Alicate

2. SEÇÃO COMESTÍVEL
Raimundo Cocada
Paulo Buriti
Chico Beiju
Mane Garapa
Antônio Macaúba
Banana
Manuel Lima
Antônio Jaca
Sukita
Zé Pipoca
Chico Picolé

3. SEÇÃO AUTOMÓVEL
Bunda de Maverick
Raimundo Caminhão
Dogde
Virgilio Gurgel
Dona Mercedes
Dona Santana

4. SEÇÃO ANIMAL
Antônio Veado
Guará
Pedro Raposa
Jaime Lobo
Raimundo Cabeça de Cachorro
Zefa Cabeça de Porco
Bode
Os Pebas
Ratinho
Mane Calango
Furão
Zeca da Cachorra
Gobira
Gato Capado
Grilo
Vaca Veia
Bezerrão
João Carneiro

5. SEÇÃO FAROESTE
Antônio Cauboy
Zeca Baleado
Geraldo Bala Doida
Pistoleiro
Pistola
Bacamarte
Chumbinho

6. SEÇÃO AVES
Golinha
Vicente Cancão
Caboré
Rolinha
Sofreu
Assis Viana
Vicente Papagaio
Luis Pinto
Zé Galinha
Vicente Carão
Pinto de Granja
Patola

7. SEÇÃO LOCALIDADE
Dona Argentina
Amazonas
Maranhão
Paraíba
Bahia
Zé Brasil
Zé de França
Vicente Sousa
Zé Belém
Mossoró

8. SEÇÃO MUSICAL
Batucada
Chico Zuada
Som
Geraldo Roque
Fonfon
Tintin

9. SEÇÃO BARBEARIA
João Barbinha
Mundoca de Barba
Cabelinho
Bigodinho
Cabeleira

10. SEÇÃO MATERIAL LEVE
Fernando Balão
Papilin
Maneiro

11. SEÇÃO NOME FEIO
Luis Bundapeida
Pela Pau
Zé Coco
Piroca
Mala Peidona
Zé Tabaco
Luis Rola Bosta
Bufão
Vicente Bosta Seca
Zé Cacetim
Frei Priquito
João Rola
Pau Preto
Deca Bunda
Peidona

12. SEÇÃO ILUMINAÇÃO
Geraldo Lamparina
Da Luz
Vela Branca
Brasa
Jesus Fosco

13. SEÇÃO IDADE
Nenenzinho
Veinho
Pai Vei
Rapaizão
Dona Moça
Menininha
Novo
Veio Macho
Veia da Coelce

14. SEÇÃO DA BOA VONTADE
Dona Generosa
Seu Fiel
Zé Bonfim
João Pacífico

15. SEÇÃO RELIGIÃO
Bento
Chaga do Rosário
Vicente Crente
Santinha
Jesus Ramalho
João Cruz
Deusinho
Abel
Isaac
Isaias
Davi
Chico do Céu
Zé dos Santos
Chico Beato
João do Padre
Dos Anjos

16. SEÇÃO CORES
Chico Preto
Chico Branco
Róseo
Zé Pintado
Violeta

17. SEÇÃO FLORES
Dona Rosa
Dona Margarida
Dona Magnólia
Maria Boca de Fulo
Bugari

18. SEÇÃO AQUÁRIO
Antônio Cágado
Geraldo Piau
Baleia
Zé Carí
Jacaré
Camarão
Sapo

19. SEÇÃO MIUDEZAS EM GERAIS
Bolinha
Carrapeta
Potinho
Cabacinha
Chaveirinho
Pibola
Manuel Litro

20. SEÇÃO LIMPEZA
Jorge Banhos
Maria Pia
Cascão
Cheiroso
Luis Potassa
Zé Brilhante

21. SEÇÃO VEGETAL
Mata Escura
Benjamim
Zé Matos
Nelzinho Favela
Joana Catingueira
Damião Mangabeira
Oliveira

22. SEÇÃO VISÃO
Chico Cego
Ruba do Olhão

23. SEÇÃO DOS COUROS
Manuel Solinha
Vicente Seleiro
Vicente Sapateiro
Zapargata
Bota

24. SEÇÃO VAI E VEM
Ia
Vinha
Talá
Lado

25. SEÇÃO DEPENDENCIA
Zé de Fiel
Chico de Teresa
Pedro de Ozanele
Carlos de Olavo
Raimundo de Zé Dantas
Lourdes do Padre
Vicente de Enoque
Vicente de Olívio
Tota de Maricô
João de Guilhermino
Didi de Ivonise
Graça de Zé Dantas

26. SEÇÃO RIQUEZA
Chico Boca Rica
Barão
Zeca Botija
Wilson do Bolsão
Zé das Medalhas

27. SEÇÃO TAMANHO
João Grande
Zé Pequeno
Baixinho
Baé
Pequeno

28. SEÇÃO ESTABELECIMENTO
Zé da Banca
João da Bomba
Luizinho da Coelce
João da Cagece
Josa da Padaria

29. SEÇÃO ALFABETIZAÇÃO
Dona Aidê
Gege
Dedé
Dedê
Dada
Didi
Dodô
Dodó
Dudu

30. SEÇÃO TELECOMUNICAÇÃO
Zé do Rádio
Chico da Torre

31. SEÇÃO PARENTESCO
Arruda Sobrinho
João Neto
Gustavo Bisneto
Titio
Raimundo Vovô
Mano
João Filho

32. SEÇÃO FARMÁCIA
Maria dos Remédios
Cibalena
Sonrisal

33. SEÇÃO ARTISTA
Dominguinhos
Sandra Sá
Luiz Gonzaga

34. SEÇÃO DIMINUTIVO
Geraldinho
Carlinho
Dentinho
Mazinha

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

SIMBOLOS LAVRENSE

Idealizador: José Airton Teófilo dos Santos
Ano Criação: 1968



HINO DO MUNICÍPIO


Música: D’Alava Stella
Letra: Linhares Filho



ESTRIBILHO
Lavras, no amor dos teus filhos
Vives de bênçãos coberta,
E esse teu sol de áureos brilhos
Para a glória nos alerta.

Teu passado de lutas e penas
É penhor de inconteste grandeza.
Afagamos-te no íntimo, e acenas
Para o eterno, em mil sonhos acesa.

De ti sempre queremos ser dignos
Para, em festa, cantar-te louvores.
Não te embalem jamais os malignos,
Turbilhões de maus tempos e horrores.

ESTRIBILHO
Se teu Rio Salgado nos banha,
És a fonte que sempre sacia.
Teu encanto tem força tamanha,
Que nos dá, para alçar-te, energia.

Impedir o teu nobre destino
Força vil e cruel nunca possa.
Do Ceará se clarão matutino,
E que nunca esqueçamos que és nossa.

ESTRIBILHO
Cornucópia dourada de Ceres,
Os teus dons nos formaram o ser.
Com o ardor, com que o peito nos feres,
Prometemos florir teu viver.

Monolítico grito propagas
Pela boca o teu boqueirão:
É o amor o que pregam as fragas,
O que pregam a toda nação.

ESTRIBILHO.

CONTOS LAVRENSES

PADRE VERDEIXA


Em 1830, esteve à frente da Freguesia de São Vicente Férrer, na qualidade de vigário encomendado, o famoso e endiabrado Padre Alexandre Francisco Cerbelon Verdeixa que trouxe em polvorosa a pequena Vila das lavras. Escandalizou sua população, com atitudes arbitrárias e até obscenas, provenientes do seu gênio maléfico e sombrio.
Conta-se que o Pe. Verdeixa, após abençoar um matrimônio, em Lavras, dirigiu-se com a comitiva, a residência do pai da noiva, para participar do festim. Tomou parte, também, e a paisana, no sarau dançante. Bailando e rodopiando com a noiva, dava-lhe fortes umbigadas. O noivo e outros convidados expulsaram-no do recinto a pauladas. O levita silencioso escafedeu-se, transpondo, de um pulo, uma janela, e sumiu-se mata adentro. Era assim o desatinado Pe. Verdeixa. (Extraído do Livro “São Vicente das Lavras” de Joaryvar Macedo).
Outro conto do famoso Pe. Verdeixa era sua fama de levar cura para os doentes que visitava. Certa feita foi visitar uma mulher que estava com dificuldades para parir. Selou e montou no seu belo e bem cuidado cavalo alazão, seguiu para o sítio e lá chegando preparou um escapulário e colocou no pescoço da paciente, logo a criança nasceu. Então esse escapulário começou a ser levado e colocado no pescoço de doentes e por ironia do destino conseguiam a cura. Certa vez, um curioso quis saber o que existia dentro daquele pequeno pedaço de pano costurado e pendurado num cordão. Resolveu abrir, e para sua surpresa encontrou um pedaço de papel escrito os seguintes versos: “Eu passando bem com meu cavalo alazão, eu lá me importa que essa égua para ou não”.
Outras estórias que são peculiares de cidades do interior, e Lavras da Mangabeira não fugiu a regra, são as estórias de figuras lendárias, e mal-assombro que segundo a crendice popular, aparecem visões, fantasmas e almas do outro mundo. Contam que Dona Marica do Pe. Luis transformava-se, nas madrugadas das sextas-feiras, em uma ágil e possante mula a percorrer as estradas, ora escaramuçando, ora espojando-se. E muitas são as estórias de botijas no local do sobrado do Pe. Luis. Jamais, porém, alguém conseguiu desenterrá-las, pois os que tentaram fazer, altas horas da noite, se assombraram com a presença inesperada de um enorme cavalo, de um frade velho de barbas longas ou de um padre lançando labaredas pela boca. A estória de botijas é comum em todos os sítios das antigas e ricas famílias do lugar. Existem até quem diga já cavaram e encontraram riquezas, mas não pra si, sempre para os seus patrões. Toda cidade sabe que muitas foram às botijas encontradas no Sítio Tatu de propriedade de Dona Fideralina Augusto Lima, como em sua residência na cidade.




DONA FIDERALINA: NEGROS E CABRAS
(extraído do livro – Ensaios e Perfis – Joaryvar Macedo)

O Tatu, sítio de sua propriedade e sob o seu comando, apesar de apresentar uma paisagem peculiar, era semelhante a tantas outras da região, regularmente organizadas, com a casa-grande, a capela, o engenho, o açude e os casebres dos moradores, formando a central administrativa da atividade corriqueira do meio: a agropecuária. Entretanto, a referida capela, construção muito mais rara a época, nos sítios daquela zona, assim como a presença do negro, bem mais acentuada que nas demais propriedades, emprestavam ao Tatu um aspecto especial, configurando um latifúndio.
Em geral, nas conversações sobre Dona Fideralina, se lhe faz referência ao gosto ou costume de ter sempre muitos negros no Tatu. Esta particularidade da sua vida está comprovada, através so folclore poético da região. Velhas quadras populares, como estas:

O Tatu pra criar negro,
Sobradim pra criação,
São Francisco pra fuxico,
Calabaço pra algodão,
Caraíba é prata fina,
Suçuarana, ouro em pó,
Xiquexique, mala veia e o Tatu é negro só.

Cercado de negros e cabras as suas ordens, numa propriedade de ares latifundiários, detendo o poder supremo no seu município e influindo na política do Ceará, Dona Fideralina, descendente e ascendente de líderes políticos de reconhecido prestígio, transformou-se em símbolo do mandonismo sertanejo, numa das figuras de prol da história do coronelismo nordestino. Essencialmente vocacionada para o mister político, dotada de superior capacidade de liderança e dominação, forte, autoritária e brava, não seria de estranhar que sua influência extrapolasse, como de fato extrapolou, as fronteiras do seu reduto e se fizesse exercer sobre a região e o Estado.
Essa abrangente ascendência de mandona de Lavras da Mangabeira não poderia deixar de ser evidenciada, como seus negros e cabras, pela inspiração dos bardos sertanejos, intérpretes fiéis do pensamento do povo, como no caso desta sextilha, atribuída ao repentista Zé Pinto – José Pinto de Sá Barreto:

O Belém manda no Crato,
Padre Ciço no Juazeiro,
em Missão Velha Antônio Rosa,
Barbalha é Neco Ribeiro,
das Lavras Fideralina quer mandar no mundo inteiro.




MAIS UMA DO PADRE VERDEIXA
(Extraído do Livro Antologia de João Brígido – Jader de carvalho)


Um dia, o Padre Alexandre Verdeixa foi celebrar, no mato, um casamento. Como de costume seguiu-se a festa, Verdeixa que tinha confessado a noiva, foi a um canto do casebre, tomou um chifre de guardar tinta, e pondo-o na testa, saiu de baianar, fazendo – Monnn!... Monnn!... Aos pés do noivo, em forma de embigada, deixou cair o corno; e não se fez esperar, saltou na sela, e adeus noivas e noivado!


DONA FIDERALINA E SUA PARTICIPAÇÃO NA SEDIÇÃO DE 1914
(extraído do livro – Ensaios e Perfis – Joaryvar Macedo)


Tratando do assunto nas páginas de Padre Cícero, Mito e Realidade, Otacílio Anselmo informa que, não dispondo os sediciosos de Juazeiro de munição suficiente para uma luta prolongada, Floro Bartolomeu, principal comandante do movimento armado, esforçou-se por adquirir mais munição com os amigos e correligionários do Padre Cícero. Informa em artigo publicado no Unitário, de 17.07.1915, o dito Floro revelou haver Dona Fideralina remetido, naquela ocasião, cinco mil cartuchos.
Mas, para a vitória da sedição de 14, a notável matriarca, concorreu não apenas com munição, mas ainda com a coragem dos seus cabras. A propósito, o cantador Cego Aderaldo, versejando o acontecimento, não esqueceu:

Goizinho rolou no chão temendo a bala ferina, e quando ele conheceu que ali havia ruína, correu com medo dos cabras da Dona Fideralina.

A FORÇA DE DONA FIDERALINA.

A força que Dona Fideralina exercia em Lavras era de um verdadeiro coronel. A primeira foi 26 de novembro de 1907, quando seu filho, Cel. Honório Correia Lima, chefe do partido governista, foi deposto pela força do bacamarte de Dona Fideralina, que estava a frente do combate junto com seu filho Cel. Gustavo e o Intendente Municipal, Manoel José de Barros, por ela indicado para o cargo. Fato noticiado pelos jornais da época. O Cel. Honório ocupava largo espaço político com as posições conquistadas ao longo dos anos. Só esqueceu-se que aquela situação lhe fora propiciada por sua mãe, a quem cabia, de fato, o comando. A partir do momento em que Cel.Honório passou a divergir de Fideralina, foi forçado a deixar a chefia do partido. Foi deposto e substituído pelo irmão, Cel. Gustavo, detentor da confiança da mãe.
Do episódio da deposição de Honório deriva a briga de Fideralina com sua irmã Pombinha. Era privilégio da matriarca orientar os casamentos da família; destinou ela a Honório e Gustavo, as filhas de Pombinha, Petronila e Joaninha, primos em primeiro grau. E, para mal de Fideralina, o filho que ela escorraçara de Lavras era o genro preferido de pombinha, que jamais lhe perdoou a ofensa. Na primeira vez em que Fideralina perdeu o poder no município, para os rabelistas, a irmã atravessou a cidade de joelhos, em direção à igreja. Defronte ao altar de São Vicente, ficou beijando o chão em sinal de agradecimento. E quando, antes de morrer, Fideralina pediu a presença da irmã, obteve fria e dura resposta: “Se ela quer me pedir perdão, diga que perdôo”. Mas ir vê-la, diga que não vou.



TÁ AQUI QUE DONA FIDERALINA MANDOU!

Ildefonso Lacerda Leite, médico que logo depois de formado pela Faculdade do Rio de Janeiro, começou a exercer a profissão em Princesa, terra de seu pai, Luiz Leônidas Lacerda Leite, marido de Joana Augusto Leite, filha de Fideralina. Lá, Ildefonso casou-se com Dulce Campos, filha de um chefe político do município, Cel. Erasmo Alves Campos. Com esse casamento o doutor arranjou um inimigo, Manoel Florentino que desejava ter Dulce por esposa e enraivado ao vê-la se casar com um forasteiro juntou-se a José Policarpo, ex-aluno do Seminário da Paraíba e ligado ao vigário de Princesa, Pe. Manoel Raimundo Donato Pita e resolveu se vingar de Ildefonso. Em 6 de janeiro, feriado de Dia de Reis, Florentino e Policarpo mataram com uma punhalada no peito e um tiro no coração, o neto de Fideralina. O moço ia à farmácia providenciar remédios para aliviar aos antojos da mulher. Após o crime tentaram os criminosos enterrar o cadáver. Mas, por imperícia deixaram o corpo com os pés de fora. Vingança pior aguardava a dupla de assassinos!
Dona Fideralina reuniu no Sítio Tatu os cem cabras que havia conseguido juntar com a ajuda de outros coronéis da região. Tudo isso, para vingar a morte do seu neto. Ildefonso Lacerda Leite, assassinado em Princesa - Pb. A Velha Fideralina despachara seu estranho exército com a incumbência de lhe trazer as orelhas de cada um dos assassinos do neto. Não era à toa que se dizia nas Lavras que a velha do Tatu rezava toda noite num rosário feito das orelhas dos seus inimigos mortos. Depois dos seus cabras entrarem em Princesa e fazer o serviço, arrancaram as orelhas dos assassinos do neto da matriarca e disseram a célebre frase: "Tá aqui que Dona Fideralina mandou!". Esse crime de princesa, ocorrido em 1903, marca o início da projeção de Dona Fideralina para além dos sertões do Cariri, e a extensão da sua influência junto ao governo do Estado do Ceará.



FIDERALINA E SEU INIMIGO MONS. MICENO!

Herdeira de dois grandes chefes, acostumada ao poderio, não admitia oposição. Sendo preciso, esqueceria a religião e lutaria contra a Igreja. Mons. Miceno Clodoaldo Linhares, vigário em Lavras por 49 anos, de 1879 a 1925, que ousou opor-se a Fideralina, provou-lhe o ódio. Era conhecido pela sua retidão de caráter, pela facilidade para o discurso, tinha admiração do clero. Mas tinha uma mancha na vida. Quando jovem, tivera uma filha em Tauá. Fideralina levou a peito tornar público o erro do vigário. Mons. Miceno, ao partir de Lavras, profetizou que as crianças daquela época veriam a queda de Fideralina. Errou: Passou-se muito tempo até o dia em que ela, ou os seus, não conseguiram mais eleger o prefeito.